Minhas férias (ou voltar a escrever)

por llforbes

Durante a minha infância eu tentei por alguns verões aprender a fazer tricô com a minha avó.  Passávamos horas conversando sobre agulhas, linhas e tipos de ponto; ela sempre na cadeira de balanço com o mesmo coque que, dependendo do dia da semana, estava impecável ou prestes a desabar, e unhas redondas, bem feitas, em tons de rosa, eu sempre morrendo de calor porque Porto Alegre no verão é muito mais quente que Salvador ou Apucarana. Minha avó ia à cabeleireira às terças-feiras.  Meus pais sabiamente sumiam de cena depois do Natal.  Eu não saberia dizer quantos verões foram, ou se uma determinada história aconteceu neste ou naquele ano.  O script era sempre o mesmo, com alguns cacos ano a ano –o assalto a casa de veraneio, os peixes na piscina Regan, as pernas de pau e o skate feitos pelo meu avô.  Todo Reveillon tinha tiro para o alto. Todos os dias tinha picolé, televisão e um rio na frente de casa onde nunca pudemos nadar porque era (ou achavam que era) muito poluído; até hoje não sei. Às vezes meu tio buscava a gente para andar de barco no mesmo rio poluído, e quando meus pais voltavam de viagem, íamos todos almoçar no Bolonha.  O Bolonha para mim era o melhor restaurante do mundo.  Eu nunca aprendi a fazer tricô, nunca consegui fazer mais do que três fileiras cheias de buracos, algo muito longe de um cachecol.  Ficava com as mãos e os braços tensos, rígidos, me lembro da sensação até hoje. Tem gente que diz que fazer tricô ajuda a relaxar, nunca entendi. Minha avó fazia qualquer tipo de ponto, qualquer modelo de roupa. Fazia crochê também muito bem. Meu avô fumava cachimbo e ficava horas lendo, tinha as canelas finas e um jeito bonito de cruzar as pernas. Às vezes me pedia para cortar o cabelo dele com uma tesoura gigante e sem fio.  Todas as tardes minha avó regava o jardim. Até hoje fico feliz quando sinto cheiro de fumaça de cachimbo.