O problema são os outros

por llforbes

Maria –ela tem horror que a chamem assim, e grita até perder a voz quando escuta o seu nome– mora no meu bairro, na rua, desde 1992, ou talvez seja um outro ano que nem ela nem ninguém mais se lembre. Antes disso, ficou internada por alguns meses em um hospital psiquiátrico em Itapira, fugiu, passou dois anos comendo só tomates em um sítio abandonado em Cotia, e chegou a São Paulo escondida em um caminhão de alface em uma quinta-feira, dia de feira na Barão de Capanema.

Os dentes incisivos, quatro em cima e quatro embaixo, caíram durante os anos que passou comendo tomate em Cotia. Desde que se mudou para cá perdeu mais três dentes (podia ser pior, segundo ela), o último em uma briga com um mendigo desalojado da Praça Roosevelt por causa da reforma.

De um pedaço de fita que alguém jogou no lixo ela tenta fazer um laço para por na cabeça. Tira primeiro a touca de banho –prefere usar a lavar os cabelos na rua–, dobra ao meio, depois em quatro, e guarda no bolso de fora da mala. Do mesmo bolso ela retira uma escovinha redonda, daquelas com espelho na tampa, não muito eficiente mas prática para guardar na bolsa, se tivesse bolsa. Penteia os cabelos, vence alguns nós, disfarça a sujeira.

A mala preta, dessas que se leva dentro do avião, ela procura manter sempre em bom estado. Conserta os furos no náilon usando um kit de costura que ganhou anos atrás, e mantém as três rodinhas sempre limpas e funcionando. A quarta rodinha foi roubada na única noite em que dormiu em um abrigo. (Nunca mais!) O colchão de espuma, um caracol amarelo escuro, vai em cima da mala amarrado por um barbante.

Sempre tem comida e cigarro. Ás vezes ela aproveita a água que desce pela sarjeta da Peixoto Gomide para tomar banho e lavar a roupa. O problema são mesmo os outros que gritam o seu nome.

(Dezembro é o melhor mês para quem mora na rua.) Este ano ela espera ganhar uma mala nova, com quatro rodinhas, e talvez um par de sapatos.

Maria amarra o laço de fita com cuidado, escolhe o meio da cabeça para posicionar o enfeite, as mãos trêmulas tornam o processo demorado. Fica satisfeita com o que vê no espelhinho. No bolso da mala ela busca a touca de banho; desdobra, sacode, alisa, testa o elástico com as mãos, e coloca de volta na cabeça.