Columbia Palace

por llforbes

(Somewhere are places where we have really been, dear spaces / Of our deeds and faces, scenes we remember – In Transit; W.H. Auden)

O hotel era o mais decrépito de uma série de hotéis decrépitos na Avenida São João.  O letreiro azul e branco subia magricelo por três andares da fachada, o nome, Columbia Palace, piscava sem ritmo (e em desafio ao tempo), uma calça jeans virada do avesso secava pendurada para fora de uma das janelas.

Pedro esperou o pai em um canto da recepção, uma mulher mal-humorada, vestida em um uniforme roto e apertado, pediu para ver os documentos e perguntou se “o menor era parente”. Levantou a voz, protegida pelo balcão, para comunicar que a diária teria de ser paga adiantada: –“Ordens da gerência”.  Subiram os três lances de escada devagar, o pai ofegante parava a cada quatro ou cinco degraus; a placa enferrujada dizia que o elevador (instalado em alguma reforma décadas atrás) estava em manutenção.

O quarto 302 refletia rigorosamente a decadência da rua e da fachada. O cheiro de mofo, duas camas de solteiro separadas por um criado-mudo, um abajur com a cúpula queimada, duas toalhas dobradas em forma de leque, a televisão de 14 polegadas pendurada por um rack articulado. Nenhuma boa surpresa ali.

Mas não importava.  São Paulo, a viagem de ônibus, os dois dias com o pai…

O letreiro azul e branco –Columbia Palace, Columbia Palace– bloqueava metade da janela; pela outra metade se via, do outro lado da rua, depois de vencido um emaranhado de fios, um estacionamento e O Espeto do Gordo.  Com as mãos apoiadas no peitoril imundo da janela e o pescoço esticado para fora, o pai anunciou que à direita ficava a esquina da Avenida Ipiranga com a Avenida São João, “aquela da música filho, sabe”?  Pedro não sabia; o pai limpou as mãos com um gesto rápido e sugeriu que fossem comer alguma coisa.  Pedro não via o pai há seis anos.

Saíram caminhando pela São João, Conselheiro Crispiniano, Barão de Itapetininga, em direção ao Theatro Municipal.  Um ônibus elétrico com os cabos soltos atrapalhava o trânsito, o cobrador dava saltos ornamentais tentando colocá-los no lugar.

“Pai, por que tantos cegos?” O pai ergueu os ombros, também não sabia, todas as vezes que via um grupo de cegos no Centro só conseguia pensar em Brejo da Cruz e nos milhões de seres tão bem disfarçados que ninguém pergunta de onde essa gente vem.  O pai de Pedro tinha essa mania, transformava tudo, qualquer ideia, imagem, pergunta, em letra de música.  A mãe ficava furiosa, mas fazia muito tempo que ele não pensava na mãe de Pedro.

O pai tinha ido embora de casa, da casa de Pedro, da mãe de Pedro, no dia 07 de setembro de 1991, de manhã cedo, depois de discutir com o irmão sobre um assunto que Pedro não tinha entendido, ainda.  Deu um beijo na testa do filho, como fazia todos os dias, e saiu dirigindo sua Parati branca, sem mala, sem nada.  Pedro tinha oito anos e os desfiles na televisão só o fizeram pensar no pai, em sua ausência, na hora do jantar.  A mãe passou aquele e muitos outros dias trancada no quarto. E nunca mais falou sobre o marido, nem com Pedro, nem com mais ninguém.

Acocorado na calçada do Viaduto do Chá, um camelô vestindo um colete de couro sem camisa e chapéu de Lampião vendia apitos embrulhados em papel celofane de várias cores. O assobio que saia da geringonça feita de bambu era um miado agudo, perfeito.  O pai, pela corriqueirice do gesto, só por isso, comprou um punhado de apitos e deu de presente a Pedro.

(Atravessaram a Líbero Badaró.)

No mesmo dia em que saiu de casa o pai veio para São Paulo procurar emprego.  Trabalhou por dois anos como porteiro em um prédio comercial na Rua Boa Vista. A mãe de Pedro não, porque ela não falava sobre o pai, mas os outros diziam que era um emprego menor do que seu diploma de engenheiro agrônomo. O pai de Pedro não se importava.

Sentaram-se lado a lado no balcão da Leiteria Bancário, na Rua da Quitanda, pediram dois PFs e refrigerante; o pai costumava tomar café da manhã ali todos os dias, antes de seu turno no prédio da Boa Vista.  Pedro sabia disso, sabia de tudo.  Sabia por que o pai tinha ido embora, por que nunca tinha voltado (e também não voltaria).

A viagem para São Paulo não era para ser, de forma alguma, um exercício de reparação; eles não queriam isso.  Tudo o que precisava ser explicado já tinha sido escrito nos últimos seis anos.

(Seguiram caminhando pela São Bento.)

Depois de um tempo, depois de muitos dias trancada no quarto, a mãe de Pedro se casou com o irmão do pai de Pedro, e eles (todos) se mudaram para uma casa maior, azul e branca e com jardim, em um bairro novo, planejado, longe da casa antiga.

Pararam em frente ao prédio onde o pai tinha trabalhado.  Um prédio qualquer, nada imponente comparado a outros da Boa Vista.  O pai ficou ainda por mais um ano em São Paulo, fazendo bicos, e se mudou para Poços de Caldas –um amigo da época de faculdade tinha conseguido um emprego em uma fazenda da região.  A Parati branca ele vendeu para dar entrada em uma casinha amarela geminada e sem jardim.

Aos berros, um ambulante na esquina da Boa Vista com a Ladeira Porto Geral avisa que tem modelador de coxinha.  O pai sempre escreveu, todas as semanas, desde a primeira semana. “Tem mata-rato e mata-barata”. “Tem suflair”. “E tem papa-bolinha”. Pedro, pela idade, e por uma confusão meio perto da barriga, meio perto do peito, que ele não sabia explicar, pelo menos não aos oito anos, demorou para responder.  Só depois de encher uma caixa de sapatos com as cartas do pai e guardá-la embaixo da cama, escreveu pela primeira vez perguntado como se construía um carrinho de rolimã. E, lá no p.s., escondido no verso, arriscou o primeiro porquê.

Um tumulto de gente na Quinze de Novembro fez Pedro segurar a mão do pai.  A mão de Pedro era agora quase do tamanho da mão do pai.  A viagem a São Paulo tinha sido, afinal e acima de tudo, por isso, para isso, por causa da ausência física, e pelos anos.